A ação social em rede é uma coisa tão antiga e tão atual quanto o tempo, que está sempre a nos ditar o ritmo das coisas. Neste sentido, não há uma grande novidade na proposta de criação de um novo partido com organização em rede, como o #REDE, ou Rede e Sustentabilidade, como está sendo chamado o novo movimento liderado pela acreana Marina Silva, ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula. A novidade, talvez, seja a concepção de um partido voltado à atuação via internet, a rede mundial de computadores. Mas isso também não é lá mais uma novidade.
Exclusão digital
A estratégia em rede e o uso da internet em campanha eleitoral, por sinal, deu muito certo nos Estados Unidos, nas duas eleições do presidente Barack Obama, em 2008 e 2012. A diferença é que ele não precisou criar nenhum partido, usou a megaestrutura consolidada em anos de história do tradicional partido democrata, e teve ao seu favor uma população conectada e que sabe usar as ferramentas de participação e interação das novas mídias. O acesso à internet e às novas tecnologias da comunicação são quase universalizadas nos Estados Unidos, onde a cultura da convergência é uma realidade. No Brasil, ainda tratamos da exclusão digital e social de um contingente enorme de pessoas. Só para termos uma ideia, em Rondônia, um Estado com 1,5 milhão de habitantes, existem apenas 80 mil pontos de conexão à internet banda larga.
Teia da vida
A noção de rede social também não é novidade. O estudo das conexões em rede na esfera social, ou socioambiental, migrou da física quântica e da ecologia para as ciências sociais, em meados do século passado, pela cabeça de pensadores como Fritjof Capra, autor de ‘A Teia da Vida’, de Ludwig von Bertalanffy, da Teoria Geral dos Sistemas, Edgar Morin, em ‘Terra-Pátria’ e/ou ‘Religando os saberes’, e Manuel Castells, autor de a ‘Sociedade em Rede’, entre outros, e ganhou aplicação metodológica na formulação e gestão de políticas públicas. O grande desafio, na prática, é justamente usar a lógica da articulação em rede e da transdisciplinaridade, que pressupõem autonomia e democracia participativa com organização horizontal, onde os elos são interdependentes, com o tradicional projeto político eleitoral personalista e sistema de governo presidencialista e vertical como o nosso, para não dizer autoritário e tecnocrata.
Partido de Marina
Neste sentido, os fundadores da nova legenda possuem méritos de buscar fundamentos consistentes para o novo ideário do movimento, mas fracassam na tentativa de se distanciar dos interesses eleitorais e de poder. No lançamento do #Rede ‘convocam’ a ex-ministra para a disputa presidencial do ano que vem. Tentam rejeitar o rótulo de ‘partido da Marina’, para mostrar horizontalidade e justificar a organização em rede e uma nova proposta ideológica, mas Marina Silva é posta como a estrela do partido, figura central do movimento e candidata a presidente. Assim, por mais que eu queira acreditar que a proposta do #Rede represente uma nova forma de fazer política, um bom caminho para um contraponto na crise político-partidária brasileira, temo que essa rede enverede pelo mesmo caminho de outros movimentos que pregavam ética e a justiça social, como o próprio PT nas origens.
Democracia Participativa
Evolução e inovação na política poderia ser a criação de instâncias de participação popular onde as demandas sociais, desde aquelas da comunidade onde moramos até as políticas macroeconômicas do país, pudessem ser formuladas e atendidas com a nossa participação. Tecnologia para isso existe e a internet é uma delas. Basta querer. Desse mesmo modo, poderíamos decidir pela exoneração de um prefeito ou governador que não está cumprindo o que prometeu em campanha ou atendendo as expectativas da coletividade. Mas para isso é necessário uma profunda reforma política e no sistema eleitoral brasileiro. Sem esses mecanismos, a nossa indignação continuará sendo ‘uma mosca sem asas, que não ultrapassa a janela de nossas casas’, como diz a música do Skank, ou a tela de nossos computadores, como presenciamos hoje nas redes sociais. As redes, na verdade, estão cada vez mais virtuais e menos sociais. São quase uma matrix, uma realidade paralela, muito distante do dia-a-dia.
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