Teotônio faz último São João

Estive ontem na Vila do Teotônio para conferir o último arraial da comunidade que será tomada pelas águas que formarão o lago da usina de Santo Antônio. Publico abaixo a reportagem que fiz para o Diário da Amazônia.

Texto: Guarim Liberato Jr.
Fotos: J.Gomes

A roupa era de festa, mas o clima foi de despedida e tristeza. O último arraial de São João na Vila de Teotônio, em Porto Velho, anteontem, foi assim: melancólico, uma ponta de alegria por celebrar a festa do santo padroeiro e um grande vazio de tristeza, o sentimento de perda de quem verá o seu lugar ser tomado pelas águas que formarão o lago da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira.

Os moradores de Teotônio prepararam o arraial e os grupos folclóricos da vila e de outras comunidades da Capital foram celebrar o último São João da cachoeira. O arraial bem decorado, o cuidado com os trajes - coloridos e belos, a diversidade nos pratos típicos e nas guloseimas, como pato no tucupi, peixe moqueado na brasa, tacacá, vatapá, mungunzá, bolo de macaxeira e tantas outras delicias, assim como as quadrilhas bem ensaiadas, demonstravam o cuidado com a tradição.

“Nosso medo é que essa cultura também vá por água abaixo”, murmurou a dona de casa Ivana Ferreira Archanjo, 44 anos, que distribuía gratuitamente pés-de-moleque, paçocas e balas para garotada, como pagamento de uma promessa a São João.

A animação de anos anteriores não estava presente. Os moradores assistiam com olhar distante o réquiem junino. “É uma festa, mas o clima é de enterro, de despedida”, fez questão de frisar o pescador Mário Ferreira dos Santos, 50 anos, o “Marão”. Apesar das garantias de um novo lar e de assistência social, seu medo é não ter mais onde pescar e perder o modo de vida do lugar onde nasceu. “Quem pesca de visga aqui na cachoeira só sabe pescar desse jeito e nossa atividade vai se acabar”, prevê. Na temporada dos bagres, Marão, por meio da colônia de pesca da vila, vendia mais de 70 toneladas de pescado.

As 87 famílias da Vila do Teotônio serão indenizadas pelo consórcio de empresas responsáveis pela construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, e deslocadas para um novo local. As incertezas quanto às indenizações e ao novo lugar onde terão que reconstruir a vida, afloraram durante a festa.

A presidente da colônia de pescadores das comunidades ribeirinhas do rio Madeira, Marina Gomes Veloso, 43 anos, nativa de Teotônio, percorreu o arraial com lágrimas de tristeza no olhar. “É uma situação inevitável, mas é muito triste ver esse lugar desaparecer e essas pessoas perderem uma parte de sua história”, lamentou.

História

A Vila do Teotônio surgiu no ano de 1757 com o objetivo fiscalizar e cobrar o imposto dos mineradores que extraiam ouro na região. Na realidade, os capitães-generais das Capitanias do Pará e Mato Grosso, tinham como objetivo reconstruir no local do arraial batizado como Santo Antônio, o entreposto fiscal, mas, terminaram construindo um arraial nas proximidades de Salto Grande, quando o juiz de Vila Bela da Santíssima Trindade, Teotônio da Silva Gusmão, convenceu as autoridades da metrópole e os governos das províncias a instalarem a povoação, tendo-o como executor.

Em 1757, Teotônio da Silva Gusmão – depois de muita luta, chegou de Belém com numerosa comitiva, inclusive dois sacerdotes Carmelitas – Frei José de Jesus Maria e Frei João Evangelista. Fundou o arraial de Nossa Senhora da Boa Viagem do Salto Grande que na realidade ficou conhecido como Arraial do Teotônio.

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