Deu 'panema' na pescaria
A melhor maneira de se conhecer os costumes, as tradições e a cultura de um povo é participar dela. A pescaria é sem dúvida a mais antiga tradição de um povo ribeirinho, ou beradeiro, como por aqui são chamadas as pessoas que moram nas margens ou nas beiradas do rio Madeira. Então, é numa pescaria que podemos observar as mais autênticas manifestações culturais desse povo.
Eu, beradeiro do rio Itajaí, lá pelas curvas do 'capim volta', em Blumenau (SC), fui apresentado ao rio Madeira pela artista plástica Rita Queiroz, numa de suas descidas ao seringal Santa Catarina, no baixo Madeira. Seria mera coincidência os topônimos?!... Pois foi uma apresentação de gala, com direito a recital de contos e mitos do beiradão, de me lambuzar com açaí batido no pilão com farinha de tapióca, e de comer jatuarana frita com purê de abóbora e banana da terra.
Mas a pescaria, ah sim, sabia que ela me reservava boas histórias. E foi num tradicional pesqueiro do rio Jatuarana, um afluente da margem direita do Madeira que fiz minha primeira pescaria na Amazônia. O goiano Padilha, gerente Industrial aqui do Diário da Amazônia, e o maranhense Chiquinho, nosso faz tudo no Diário, pescadores de fim de semana, se encarregaram das tralhas e, numa manhã de sábado atravessamos de balsa o rio Madeira e seguimos até o pesqueiro do seu Elias, no rio Jatuarana.
Após alguns quilômetros em uma estrada barrenta, passando por fazendas com pasto bonito e algumas castanheiras gigantes que ainda restam, espaçadas em remanescentes da floresta amazônica, chegamos ao pesqueiro do seu Elias. Bastou alguns gritos para que o 'dono' do pesqueiro chegasse com uma canoa.
Subimos na canoa e, na medida em que a proa cortava as águas do rio Jatuarana, que se espalhava sob a floresta inundada, me dei conta de que estava no mais autêntico ambiente amazônico. Sem equivalência com qualquer paisagem que me era familiar na floresta Atlântica.
Chegando ao melhor ponto no pesqueiro, começa o ritual. Padilha e Chiquinho preparam a 'ceva', uma espécie de engôdo com macaxeira, coração bovino e milho picado. Os nativos, ou os rondonienses a mais tempo do que este pescador de primeira viagem, largam o anzol n'água. Não demora muito e Chiquinho começa a pegar alguns pacus, curimatás e matrichãs. Eu, só dando banho na minhoca, não estranhei minha sorte. Mas Padilha, com sua peculiar impaciência, já estava pedindo ao Chiquinho para trocar de lugar quando bate um peixe no seu anzól. A sua vibração logo se transformou em raiva quando foi tirar o peixe do anzol e constatou que era um filhote de mandim. Nem vou relatar os impropérios disparados pelo nosso pescador, mas só de raiva ele não soltou o bichinho.
Bom, a pescaria só piorou quando chegou uma canoa com dois nativos, beradeiros da foz do Jatuarana, tarimbados nas manhas da pescaria no lugar. Um garoto que não devia ter mais de 13 anos e sua irmã, já com seus 20 anos. Aportaram ao lado de nossa canoa, largaram a cêva com urucuri, e começaram a pescar um piau atrás do outro. Detalhe, a canoa da dupla era pintada com as cores do Flamengo. Agora, quem estava cuspindo de raiva era o vascaíno Chiquinho, que, repentinamente, não pegou mais nenhum pacu. “Ih, tem urubu na área, os peixes foram embora”, murmurou. No que a garota flamenguista retrucou: “vocês é que tão com ‘panema’ e agora vem botar a culpa no meu Mengão”, fisgando mais um piau.
Eu não entendi nada, mas então ela traduziu para a linguagem capaz de ser compreendida por um novato em amazônia. Panema é uma palavra de origem tupi para coisa ruim. É o mesmo que mau olhado, azar, agouro, etc. Definitivamente não era nosso melhor dia de pesca. Os dois nativos encheram a canoa de piaus e curimatãs e se foram. Deixaram o engôdo de urucuri para o Padilha, que só então começou a fisgar alguns piaus.
Só depois fui descobrir o antídoto contra o ‘panema’. Os índios da Amazônia, para acabar com o ‘panema’ usam a secreção de uma rã conhecida por eles como sapo Kambô, considerado um animal mágico da floresta. Além do panema, a secreção do Kambô é utilizada também no combate à preguiça, mal-estar, úlceras, tuberculose e outras doenças. Bom, na próxima pescaria já sei, vou levar um sapo desses.

Casal pesca de linha no pesqueiro do seu Elias, sob a floresta amazônica
A melhor maneira de se conhecer os costumes, as tradições e a cultura de um povo é participar dela. A pescaria é sem dúvida a mais antiga tradição de um povo ribeirinho, ou beradeiro, como por aqui são chamadas as pessoas que moram nas margens ou nas beiradas do rio Madeira. Então, é numa pescaria que podemos observar as mais autênticas manifestações culturais desse povo.
Eu, beradeiro do rio Itajaí, lá pelas curvas do 'capim volta', em Blumenau (SC), fui apresentado ao rio Madeira pela artista plástica Rita Queiroz, numa de suas descidas ao seringal Santa Catarina, no baixo Madeira. Seria mera coincidência os topônimos?!... Pois foi uma apresentação de gala, com direito a recital de contos e mitos do beiradão, de me lambuzar com açaí batido no pilão com farinha de tapióca, e de comer jatuarana frita com purê de abóbora e banana da terra.
Mas a pescaria, ah sim, sabia que ela me reservava boas histórias. E foi num tradicional pesqueiro do rio Jatuarana, um afluente da margem direita do Madeira que fiz minha primeira pescaria na Amazônia. O goiano Padilha, gerente Industrial aqui do Diário da Amazônia, e o maranhense Chiquinho, nosso faz tudo no Diário, pescadores de fim de semana, se encarregaram das tralhas e, numa manhã de sábado atravessamos de balsa o rio Madeira e seguimos até o pesqueiro do seu Elias, no rio Jatuarana.
Após alguns quilômetros em uma estrada barrenta, passando por fazendas com pasto bonito e algumas castanheiras gigantes que ainda restam, espaçadas em remanescentes da floresta amazônica, chegamos ao pesqueiro do seu Elias. Bastou alguns gritos para que o 'dono' do pesqueiro chegasse com uma canoa.
Subimos na canoa e, na medida em que a proa cortava as águas do rio Jatuarana, que se espalhava sob a floresta inundada, me dei conta de que estava no mais autêntico ambiente amazônico. Sem equivalência com qualquer paisagem que me era familiar na floresta Atlântica.
Chegando ao melhor ponto no pesqueiro, começa o ritual. Padilha e Chiquinho preparam a 'ceva', uma espécie de engôdo com macaxeira, coração bovino e milho picado. Os nativos, ou os rondonienses a mais tempo do que este pescador de primeira viagem, largam o anzol n'água. Não demora muito e Chiquinho começa a pegar alguns pacus, curimatás e matrichãs. Eu, só dando banho na minhoca, não estranhei minha sorte. Mas Padilha, com sua peculiar impaciência, já estava pedindo ao Chiquinho para trocar de lugar quando bate um peixe no seu anzól. A sua vibração logo se transformou em raiva quando foi tirar o peixe do anzol e constatou que era um filhote de mandim. Nem vou relatar os impropérios disparados pelo nosso pescador, mas só de raiva ele não soltou o bichinho.
Bom, a pescaria só piorou quando chegou uma canoa com dois nativos, beradeiros da foz do Jatuarana, tarimbados nas manhas da pescaria no lugar. Um garoto que não devia ter mais de 13 anos e sua irmã, já com seus 20 anos. Aportaram ao lado de nossa canoa, largaram a cêva com urucuri, e começaram a pescar um piau atrás do outro. Detalhe, a canoa da dupla era pintada com as cores do Flamengo. Agora, quem estava cuspindo de raiva era o vascaíno Chiquinho, que, repentinamente, não pegou mais nenhum pacu. “Ih, tem urubu na área, os peixes foram embora”, murmurou. No que a garota flamenguista retrucou: “vocês é que tão com ‘panema’ e agora vem botar a culpa no meu Mengão”, fisgando mais um piau.
Eu não entendi nada, mas então ela traduziu para a linguagem capaz de ser compreendida por um novato em amazônia. Panema é uma palavra de origem tupi para coisa ruim. É o mesmo que mau olhado, azar, agouro, etc. Definitivamente não era nosso melhor dia de pesca. Os dois nativos encheram a canoa de piaus e curimatãs e se foram. Deixaram o engôdo de urucuri para o Padilha, que só então começou a fisgar alguns piaus.
Só depois fui descobrir o antídoto contra o ‘panema’. Os índios da Amazônia, para acabar com o ‘panema’ usam a secreção de uma rã conhecida por eles como sapo Kambô, considerado um animal mágico da floresta. Além do panema, a secreção do Kambô é utilizada também no combate à preguiça, mal-estar, úlceras, tuberculose e outras doenças. Bom, na próxima pescaria já sei, vou levar um sapo desses.

Casal pesca de linha no pesqueiro do seu Elias, sob a floresta amazônica
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